domingo, 1 de outubro de 2017

Livro: publicação não periódica impressa de no mínimo 49 páginas, além da capa, publicada no país e disponibilizada ao público. (Unesco)

domingo, 3 de setembro de 2017


ESCREVA PARA O NÃO-SER 

1

Escreva para não ser 
lido.

Todos os caminhos levam
à autossabotagem.

Quão desproporcional 
a nau do senso do 
                            ridículo?

2

Todos os caminhos levam 
à autocensura,

usura da tesoura lógica,  

parti com a palavra 
talhada e intestina: calado, 
um poeta. 

sexta-feira, 30 de junho de 2017


AGÓN

Perder mais tempo lá,
perder todo tempo do mundo lá
para vê-la sumarenta enquanto

Glenn Gould solfeja Bach.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016


DOPPELGÄNGER

Meu duplo não é meu duplo
nem quer ter parte com o outro
(cuspido e escarrado espelho

em casa de olho por olho).

terça-feira, 11 de outubro de 2016


nenhum nirvana

nenhum nirvana ou ataraxia
nesta etapa da degola que requer
carne, nunca aura (nenhum

nirvana neste foro, nenhum
nirvana nesta hora)

sábado, 28 de maio de 2016


AMORFO PERFEITO

Elementos de um futuro distópico,
ancorados nos mares da utopia, 
transitam, entre nós, em julgados, 

tramitam em segredo 
de justiça.

segunda-feira, 23 de maio de 2016


SE UM BODE NA SALA DE ESTAR

Como evitar chorume?
Que as paredes ganhem teias? Que
aqui se instale um curtume e

um bode na sala de estar em
nome do amor maior?

domingo, 8 de maio de 2016


Ó DEUS DO NEXO CAUSAL

Ó Deus do Nexo Causal,
Deixa-me responder sem Gênero, Número e Grau,
Deixa-me responder que é o Tambor,
Que é o Berimbau,

Que é o Amor ou o Elã Vital,
Ó Deus do Nexo Causal.

sexta-feira, 22 de abril de 2016


OS AUTOS DO PROCESSO

Só me declaro nos autos,
meu corpo entregue ao degredo
nas cercanias do fórum
onde protesto em segredo.

Eu só me expresso nos autos,
em petições, requerimentos
(moções honestas mantidas
em cativeiros modestos)

e repudio, e manifesto um

solene descontentamento com
o andamento do processo que,
em verdade, por completo,
desconheço. 

quarta-feira, 23 de março de 2016


REVOGAM-SE AS DISPOSIÇÕES EM CONTRÁRIO

Doravante
a atividade-fim de uma relação
será ouro sobre azul
gozo sobre gozo

até a apoteose (necrose
do outro). 

sábado, 27 de fevereiro de 2016


AS QUATRO PAREDES

Quatro paredes não ficam
entre quatro paredes: do lado
de fora, sem pudor, aflora
um interior

de misérias e discórdias (se
as exploro? exploro-as).

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016


SOCORRE MUNDIVIDÊNCIAS

Socorre mundividências
sem sopesar o bruto, o líquido,
sem evidenciar sentidos
               
que ponham a salvo 
nosso chão.

Mundividências sem divãs,
sem audiências, sem ecrãs,
socorre hoje, que o 
                         amanhã

é átimo tímido. 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015


DO LUTO TÁCTIL 

na homicídios
meu filho em chamas
eu tenho a foto
         os fotogramas

eu sinto as chamas
fogo selvagem
tenho as 
            imagens

frame
         por 
             frame.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015


ALPINISMO SOCIAL

Como responderei-lhes quando, 

um  dia, perguntardes se praia 
ou se montanha? 

Preferirei a infâmia, não responderei 


bulhufas às questões 

contemporâneas (marciais,
marcianas).

À boca pequena digo que 
desfruto os infinitos dos 
engodos, da patranha.

terça-feira, 6 de outubro de 2015


PIRRO 

Álcoois, tribunal cardinalício, 
súbito tripanossomatídeo faz-me 
festa na floresta intestinal

trespassada de boatos 
e vitórias de Pirro, venham
todos e sejam bem-vindos,

vem que vem, filha,
vem que vem, filho,
vem que vem. 
  

terça-feira, 8 de setembro de 2015


DOIS DOS MEUS

Vi dois dos meus tombarem
feio, não como mártires, mas 
como é dado aos 
marmiteiros.

Dois dos meus, e ninguém
reparar na credulidade que 
fulmina (portadores que eram
de pequenos recatos

e mínimas chacinas). Dois 
dos meus: apresuntados,
renegando plasmas e tiros
de misericórdia,

seus amores embargados
pelos bons costumes, dormem
agora o sono da justa poeira
cósmica (única pátria 
                         educadora).
     

sexta-feira, 17 de julho de 2015


EXIT 

Nada mais infecundo, 
nada mais desditoso: o 
encouraçado iracundo  
(ser exitoso):

hégiras, diásporas,

êxodos.

sábado, 11 de julho de 2015


UM REI QUANDO ESTÁ NU

Um rei, quando está nu,
ainda é rei? Depende de quem
fita a majestade? A roupa nova,
enfim, é novidade? Merece

um tiro de misericórdia
quem elogia reis em
novos trajes?

domingo, 5 de julho de 2015


TECENDO RELAÇÕES (COSMOGONIA)

Um zé bonitinho não
tece relações: precisará
sempre de uma 
                       amante

que grite impropérios
e o leve alhures; que 
o espere acordada
madrugadas

e incorpore giras 
se esparrame em
tendas
          que evoluam

e incendeie o cosmos
desprendendo o 
cabelo
         às gargalhadas.

quarta-feira, 1 de julho de 2015


VC QUER BRINCAR NA NEVE?

É tempo de afiar facas
(correr atrás dos moleiros)
para lanhar costas largas
com nosso instinto
açougueiro;

horário do vilipêndio

de corpos ainda 
onívoros; momento de
atocaiar-se

e esperar pelos vivos:
que venham em ondas, levas
de quatro ou cinco
                          fregueses

ou venha bojudo indivíduo
que se enrede em 
nosso freezer. 

segunda-feira, 29 de junho de 2015


EM SUPLANTANDO

Em suplantados, tudo dão:
o amor, a lua, o holerite;
uns onze contos de réis
e juras de dinamite;

convites para o infinito
e a finitude do alpiste se
em suplantados como

são (petizes sem
expertise).

quarta-feira, 17 de junho de 2015


O PIO DO OVO GORO

O ovo goro em
frigideira adjuvante
não é cordato 

com os apetites:
turva jantares, neles
se amplia, paira,
impregna 

moda um esquife.
Puro miasma de 
má ambrosia:

convoca as ânsias,
asfixias, e em vão 
emana

sua natureza
interrompida (um
ovo goro, piar 
não pia).

terça-feira, 9 de junho de 2015


O POEMA DAS CORREÇÕES 

Corrija-me se eu estiver errado,
se eu estiver blefando, se eu
estiver mentindo, se eu estiver
endereçando às paredes

minhas teorias conspiratórias;
corrija-me se faço de terceiros
bezerros de ouro, bodes
expiatórios,

corrija-me se agora falo
umas verdades que só enuncio
quando bêbado, que só
reverberam quando eu,

sombrio, ponho tudo 
a perder.

domingo, 31 de maio de 2015


A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA (MISTER SANDMAN)

Tento acordar dos pesadelos.
Tento dormir, ter pesadelos, mas 
o placebo mais acerbo é uma 
piada de mau gosto 

que não faz dormir nem
se põe a despertar quem 
já não quer dormir ou 
o acordar 

em leitos paliativos (possíveis 
pasárgadas se não minto). 

                    *
O placebo mais acerbo é 
uma pirâmide autocrática 
que determina base 
e topo: 

se travesseiro de pedra, se 
do conversível o estofo 

(será administrado ao
corpo em óbito, como de 
hábito, novo placebo
luminoso).

sexta-feira, 15 de maio de 2015


SÍTIO ARQUEOLÓGICO

Lascar pedras
construir abrigos antinucleares 
com garrafas pet
e a sagacidade

de quem se 
adapta, opto pela ritalina
consumida à revelia
do imaginário em

teatrinhos teratológicos
(vulgar armário)

quarta-feira, 15 de abril de 2015


VIA DAS DÚVIDAS

A via sacra das dúvidas
primeiramente repugna,
antes de tudo constrange (o
osso e o ofício da dúvida

é constranger e é de súbito
eliminar a certeza que 
paira crua, absurda: ave
de veias abertas).

segunda-feira, 17 de novembro de 2014


AMAR É USAR LINGUAGEM DE CASERNA

Amar é usar linguagem de caserna,
da intimidade crua o anedotário
de vestiários, bares, serpentários
onde dilacerar do ser a fleuma;

é conspurcar de gozo os ademanes,
sujar de estrebaria os solilóquios,
rasgar declarações, castrar o móbil
que parasita almas tão ingênuas.

Forbidden doravante seja lema
do amor sem etiqueta ou suspensórios
(o amor é amar sem genuflexórios). 

O franco-atirador fez um poema
e o leu qual menestrel, contudo o óbvio
não se concretizou (o amor não é tema).

terça-feira, 7 de outubro de 2014


A CAVERNA 

O escuro também ocorre
como ato de currar; caverna a 
ser suplantada, contra a
qual não há recuo.

Também se exerce como falo,
como corpo cavernoso,
como recurso ignóbil
o escuro.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

1.ª Reunião de Intercâmbio - coletivo Sáfaro e Vinicius Andrade


Helena, de Eurípedes


Vinícius Andrade
Mariana Waechter
Samuel Gambini
Luíz Falcão
Ronaldo Dimer
Leonardo França

Fonte: http://osafaro.blogspot.com.br/2014/06/1-reuniao-de-intercambio-coletivo.html

sábado, 10 de maio de 2014


THE SELFIE

Amigos de anos-luz
feitos às pressas, vultos
de outros comparsas (múmias
elencadas em icebergs:
agremiações suburbanas)
tomados de automóveis
(possantes que lamuriam),

descendo velhas ladeiras
em limitados rolimãs
passados de pai pra filho
(onde o álcool e a direção:
nossas sublevações),

velocistas hardcore
como sói acontecer.

domingo, 22 de dezembro de 2013


DOS MONSTROS QUE ORA TEMEMOS

Os monstros que nós criávamos
gangrenados, galos cegos; os monstros
que nós pensávamos inativos (o
prazo de validade vencia antes
de usos enviesados);

os monstros que nós queríamos
desmanchados nos aterros;

os monstros que nós amávamos
porque parte de nossos egos:

tais monstros estão acesos,
piscantes, luzes de boas festas
tramando doidos enredos;
os monstros que sopesávamos

ignorantes dos pesos, das
medidas (seus pentelhos em nossos bigodes,
seus fedelhos em nossos ovários) e outrora

doces caseiros, vendidos
de porta em porta os monstros 
que ora tememos (não porque
monstros sagrados, 

não porque monstros do lago, 
não porque ensimesmados nem 
porque monstros monstrengos).

                    ***

Tememos, da sensação de pertença, 
este sentido de pertencimento (elã e
elo como se Édipo em Laio).

sábado, 7 de dezembro de 2013


SONHO

sonho sem cara de sonho
sem áudio de sonho sem
banda larga de sonho

sem quórum para validá-lo
mas a não sonhar prefiro o
sonho


e o pesadelo de sonhá-lo


sábado, 2 de novembro de 2013


SONETO MANCO DO RISO NERVOSO & DO AMOR SEDENTÁRIO


Cigana, a minha efusividade
é burro que amarro nas encostas,
pletora de respostas empregadas
na construção de egos e chacotas;


é chato contraído nas masmorras
das conjuminações, dos sentimentos,
evento que, perdido em mil gomorras,
oscila-me entre lapsos e membros


que a memória decepa e o tempo arranca
com ganas de amputar o pensamento
urdido pela sífilis: coroa

de um nobre, de um novíssimo engenho:
a cáustica anedota para a cura
dos males cujo humor é só indumento.



quarta-feira, 19 de junho de 2013


ADAGA ÍGNEA

Duas pontadas ou três
segredam rimas (procuro discrição
ao ignorá-las)

mas não evito o esgar,
a mão ao peito é
esgrima

e a lâmina por dentro:
adaga ígnea.

quinta-feira, 6 de junho de 2013


PASSE LIVRE

Contorno da rua os poros
e entre os bares do entorno
retorno aos pontos remotos:
meus lares surgindo forros

e neles meus ilibados
parentes: entes tão mártires,
mentes tão... tão perigosas,
gozosas asas, quão ases

tais bebuns, quão renomados
em não serem só reclames ("o 
transporte, o bem dos homens"),
seres probos neste front:

o balcão, Chicão, escores...

terça-feira, 9 de abril de 2013


KAFEÍNA

Cafeinar os açudes,

coar as águas dos mares:
café das vicissitudes 

no bule de chá de

Russell.

sexta-feira, 29 de março de 2013


ELVIS 2013

seus cabelos brancos
de Elvis Presley obeso
dado a celofanes
na melhor idade 
para converter-se,
repentino vácuo
onde Deus existe,
onde existe O Sopro
e o caos de dissolve,
repentino gnomo,
repentino óvni,

love me tender, love
se e quando
                  ou nem 

sábado, 16 de março de 2013


BATRAQUIANA

Engolidos frios

quantos fios de vingança,
carne e bile
                 extraídas de 
metafórico batráquio?

Quantos girinos

dentro de aquários (eras,
traqueias) deglutidos
no apogeu

de inesperada

bonança?

Um sapo-flâmula

(anfíbio), lâmina que,
absorvida,
         coaxa, sangra.


EXPERIMENTAÇÕES


Amor escarlate:
cartela de valium,
caminho suave

comprimido em drágea ou outra
maneira de partilhar e de ingerir

inequívocas doses
de amargura.

domingo, 17 de fevereiro de 2013


ARTES MARCIAIS MISTAS

Não quero morrer de sono,
de tédio em bibliotecas
errôneas, subterrâneas
sem nem desfibriladores.

Quiçá em prontos-socorros
e em tablados meus vetores:
plataformas de bandagens,

poloneses corredores. 

domingo, 21 de outubro de 2012


SEIN UND ZEIT

Ávido estás por esgueirar-se do abismo

mas só a ribanceira se avoluma – luva a descair
por elos, dedos, a exigir e ser 
póstuma cura, 

pêndulos que a vida já não oscila,

transcendidas as fendas na estrutura 
ontológica, cessada a existência 

do criador em sua criatura.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


NOVOS MESSIAS SURGEM 

Novos messias surgem,
oriundos das choupanas: são
vaquinhas de presépio

alçadas à manjedoura, e
ainda que das masmorras
as tais se desvencilhassem

(velha massa de manobra),
vaquinhas ainda seriam:
ruminantes, sonhadoras.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012


DO POVO COMO O CÉU É DO URUBU

A praça, privatizaram-na,
o carro de boi e as tralhas
dos racistas, dos puristas,
ufanistas,

falsos hippies,
repentistas mendicantes
do poder.

sábado, 21 de julho de 2012


FLORA PRA QUE TE QUERO (HOLAMBRA)

Crivar-me de magnólias,
de girassóis de artifício
ou fedegosos canteiros,
panóplia de buganvílias

ou mar de rosas dos ventos
(meu corpo obnubilado:
mandala de gozo e guenzo
da terra que se anuncia

à morte que incubo
e venço).

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012



T E E M P O

o tempo urge
retumba age

ave espedaçada
no horizonte

ser incediado
no poente

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011


O MELHOR POEMA


Embandeirado poema
que se estuda, que se extrema
em bares e reitorias; ao pé
da letra o poema

resolve-se em má poesia:

o algoz também vitimado
em autoimposta performance
ou autoimposta ironia;


sorrir passa a ser remédio
contra o tédio e a anomia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011


ALGO A DECLARAR


Algo a declarar:
que perdi o vale-transporte
que os meus dentes
cariaram

que não bebo faz três dias
que caloteei o bar

e o troquei por aspirinas
que a promoção me escapou
por secretos vãos dos
dedos

que sou mortal entre as linhas
de montagem (ou desmanche
de egos).

sábado, 1 de outubro de 2011


CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO


1

Criado amado, mudo,

inerte, ludo arquetípico, pavio
dos agentes passivos.


A cabeceira, o surdo
em involuntários sonidos,
ignara madeira quando
há e não há arbítrio.


2

Criado-mudo: ignaro (o

mundo em suas gavetas),
inflexão sem alarde

ou greve ou piquete: a arte
de servir, de se prestar
sem
jamais dissimular-se.

sexta-feira, 29 de julho de 2011


1984

Mortos os meus
interlocutores (desossados

pelos ossos do ofício), comecei
a vê-los, revê-los: o meu
compadre Aparício,
familiares e filhos

na tela deveras plasma,
deveras sangue, suplício
na tela: tela de tela,
na teletela: utensílio.


segunda-feira, 18 de julho de 2011


FLOR DO ÍNVIO ARBÍTRIO


Meu poema é régia
dor de cotovelo; flatulência, 

feto; impossível, cível.

Meu
poema absorto
em assumir-se parto
digno de aborto (postula-se
póstumo, o puto). Meu 


poema, apenas: 
trivial e frívolo, 
moral que ignoro, 

flor do ínvio 
arbítrio.

terça-feira, 5 de julho de 2011


A ALAGADA MESA


De vidro a alagada mesa,
infâme Veneza falsa,
cristal que o vidro não cessa
de ser: cristal e incerteza,

beleza à francesa, valsa
que o vaso chinês e o persa
tapete jamais cerceiam; de
vidro as marés, as cheias,


futuros cacos, relíquia,
aquosa deliquescência.

sábado, 2 de julho de 2011


DO AMOR: O VITRAL E O VULTO

Amor, mato estéril, remoto
o amor, sem nexo, inútil,
seus arquétipos militares
sobrevoam sexos sujos,
garimpam o gozo em caatingas
como é propício ao amor cátulo:

amor de tolo, século vinte.

(não ria, meu bem, nem chore do
amor frouxo em seu deboche; não

zombe meu bem, nem sofra o amor
maior: repartido em óbices)

Amor varonil tocando
seu corpo erótico: porta
lacrada em mil calafrios;
maníaco, repressivo,
como um filho o amor “deprê”
entre mares, marcapassos,
entre a podridão dos frutos
o amor: conflitos, fritas,
ou catira em lua cheia.

Entre a podridão dos frutos
o amor é o símbolo fálico
entre cachos, em parreiras
chupadas por bocas críticas

(o amor falido vira emblema)
proporcionais às velas e asceses
do amor simplório, simples, chulo
(o amor se descobre mudo
alagado em si: esperma),
rubicundo o amor ou ápice

se estereótipo em riste.

O amor pichou-me o muro
e imprimiu-me à testa: "nulo"

e imprimiu também: "quem sabe?"
conquanto os dentes de sabre
sejam mágicos, meus, maiores
que dor de corno ou o texto
que não decorei de todo.
Daqui estou vendo tudo
aquilo que o amor expele: fluído
de freio, refluxo,
a sede
de ser parido

e amado como os marujos
(a
sede que explode em jugo).

Amor verossímil, rouco
em meio ao eco confuso
como os ecos: sempre escusos
mas daqui neste ouço-não-escuto
o amor, par de olhares xucros

vê o meio de suas pernas
enredado em etiquetas ou

talvez em amor (em asneiras

propaladas pelos cultos

espiões de sua maneira
de abrir, fechar janelas e
eufemismos pra vereda).


sábado, 28 de maio de 2011


A VAIDADE


Meu rosto
um caminho de ratos
por onde mongóis e
songos ainda erram;

caminho rarefeito
por onde magnólias
e miragens olham,
se espelham;

complexo de caravanas
por onde a ação do tempo
faz a curva
(e não oculta
rastro, espectro).

sábado, 16 de abril de 2011


TRÁS-OS-MONTES


Tudo por fazer na lista de afazeres:
trocar as mãos por pé e pé,
manicurar-me em pedicuros,

vice-versar as mãos e os pés,
depois perdê-los no cassino
ou no fordismo as mãos, os pés

se em Bem-me-Queres
quer-me nulo

e em me querendo,
mal-me-quer.

sábado, 26 de março de 2011


GABRIELA MISTRAL


Obliterado meu canto
nas águas que findam marços,
que amarfanham verões
e amarrotam poetastros;

assim se esvai via cratera
lactante e etéreo desvio
sugado como alimento
pelo
mais pródigo cio


já efetuado em leito: a chama
e o calor de um filho.

domingo, 13 de março de 2011


SALVO ENGANO


Hoje não estou para opiniões:
tostões furados, bolsos furados,
nenhum ouvido para despejar
os meus conselhos,

nenhum apelo para redigir,
nenhuma opinião ou redarguir
salvo engano,

onisciente e ocioso engano,
o brusco poema do desditoso engano
salvo ou salvífico
o engano.

sexta-feira, 11 de março de 2011


COMPOSIÇÃO


A fome pode emprenhar
um corpo desidratado; pode,
sim, dessedentar


dissidentes de um aquário


(não nos desminta a sereia
radicada em saliências; vide
hermética apoteose


em Andersen-Scheiss,
Gabriela).

terça-feira, 1 de março de 2011


ALTERNATIVO ITINERÁRIO

O ônibus retardou-me
no amarelo piscante

e anunciou-me (mímico) um
trânsito sem
sintaxe.

"O asfalto é opcional", diz

o anúncio publicitário

durante um jogo de futebol
e eu aqui: ser alicerçado

e
intransitivo filho da pista

que não digere
não regurgita


nem dá-me à luz
entre
vãs ferragens
.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011


COMO NOS FUTEBÓIS


Como nos futebóis um
inglês de capataz para expedir
um hamburguer quentinho
e uma diet coke.

Como nas partidas internacionais:
nelas, os pernas-de-pau imploram
ao árbitro (mesmo em aramaico ou
portunhol) para que dos males ele

aplique o mal menor mas
pressuroso é o veredicto:
red card.


domingo, 16 de janeiro de 2011


( 0 )

Meto-me para fora

e em boa hora me encontro
submerso; para fora, entre
tantos tantos,

da iminência de um teto,

meto-me para fora, e
fora singro o adverso:


cardume de óbitos foragidos,
semente de seres ainda vivos,
meto-me para fora e,
consternado, atingido,

respiro o preço da habitação:
a
dor da sobrevivência, dor da
aniquilação

que nenhuma ação repara

se entre escombros de
entre-
muralhas

resigna-se um coração.
Nenhuma ação solidária
solidifica meu chão.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010


SUDORESE


A

Cordão de sudorese

que orna o pescoço;
transpiração frutifica,
brota, enforca;

suor que se vende,
cobra, dobra a esquina,
divide-me tronco e

membros e cabeça

(o preço que desembolso
em estado líquido).


B

Da sudorese o incolor

do meu percurso: a cédula
melecada,
a cifra aquosa

e o troco (que é sudorese
em verso e prosa) catimba,
ginga, ironiza, faz firula.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010


DOM MANUEL EDMILSON DA CRUZ

Se a onda pega (démodé
vaga) de recusarem comendas,
rarefazerem-se ofertas
tão generosas

de senadores tão férteis
(homens tão probos)
ao concederem a comenda
Dom Hélder Câmara...

Em Limoeiro do Norte
um homem se chama
Dom Manuel Edmilson

(estraga-prazeres).


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010


BAR À VISTA OU COM VISTA PARA O BAR


Meus livros: guru inseguro
agora que me dei conta de
um bar que me dá na vista
e desponta. Vingam pálbebras

de insônia e a barulheira
dos bêbados que equilibram
as doses mais adversas
e os diversos enfisemas

(cadavéricos enigmas).


Na calle Padre João Álvares
a Fonte da Juventude
perdura no bar defronte ao
espelho que se expande.

domingo, 5 de dezembro de 2010


RESERVE A AREIA


Reserve a areia,
as ondas, alugue as fases
da lua cheia de ser

minguante,
reserve-a antes que
os grãos acabem,

reserve dunas,
pranchas de surf, reserve
o schoppe do chão

que se abre.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010


A FILA AINDA


Danças de acasalar
em filas estagnadas...
Ainda andam? Coitadas
destas filas indianas

cuja falha é andar
(e andam)
com pés de patos
que empatam


travessias e cirandas.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010


MOVIMENTO ESTUDANTIL


No bar Auréolas,
anjos do chope e do shopping
agitam galeras,
enormes e uniformes

sonhos de consumo
conduzindo grêmios
e outras legiões.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010


ÁLVARO DE CAMPOS

Testemunhas
duma sanha de punir e apaniguar,
derramar sangue e prover
de panos quentes,

moralizar e subverter
entes, cercanias
cheias de agentes
históricos

e esotéricos ventres.

domingo, 10 de outubro de 2010


O MUNDO DE MARLBORO

Meu carro é vermelho-turvo,
é direção e acessório,
repositório
de tudo: da lira
à testosterona.


Pneus cantam em Arizona,
Marlboro montado em augúrios:
volantes, respiradoiros,

motricidade no escuro.


sexta-feira, 1 de outubro de 2010


BANHEIRO QUÍMICO


A ditadura da merda
pulula em meu calcanhares:
pergunto se o próprio Hades
refocilou-se na festa

do mundo entre coliformes:
os mortos, além de informes
(imundos além de mortos),
ressuscitaram em evento

sem nexo, saneamento
ou pérolas como tropos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010


TIRO DE GUERRA

Tiro de guerra em
mangas de camisa: viragem,

patriotagem, diariamente a
mentira

repatriada,

voragem de tanques e mais
que estanques turbinas,

diariamente a pendência
pende e alucina:

rever a independência
repentina.

 

domingo, 5 de setembro de 2010


O SUICÍDIO DE JOCASTA

O mal de Alzheimer em Jocasta
embaralhava pais e filhos: "Quem
este ente masculino

a me aprumar as fraldas cheias
como se tranças ou madeixas?

Quem este sangue do
meu sangue, lugar comum
em meus sentidos, este

enfermeiro fidedigno
em partos, fetos e sentenças?

És nestas vestes esta seta,
decrepitude e suicídio
, índice
e estrela vespertina."

terça-feira, 17 de agosto de 2010


ÉDIPO REI

Caso seja eu, o infame a instar
o frequentar da luz os labirintos
para os quais não fui chamado (vis
recintos) com honras de militar
condecorado ou falecido

recusem-me o adentrar
de perros apedrejados; sonâmbulos
perambulem

por onde meus pés inchados
pisariam, por pisar, a anatomia
de Thanatos.


terça-feira, 27 de julho de 2010


METÁFORA MARÍTIMA DO SER


Não sei se embaçada (embevecida)
a ação do visionário em seu labor.
O mar se faz ao mar: chamai de ímã
o prélio entre a metáfora e o grão

de areia nesta cela que é contígua
ao cárcere que encerra vosso chão
- fadada deserção de afãs e cais -
enquanto faço minhas instruções

que apreendi furtando em vossos sais
o corolário ilógico: colar
de olhares e mergulhos: vão dever

de se fazer ao mar: o mar se vê
nos flashes embaçados do homem ao mar:
metáfora marítima do ser.

quarta-feira, 21 de julho de 2010


PROFICIÊNCIA

Não são meus os universos
baratos e eficientes.

Não sou de puro e
simplesmente oficiar, há
quem me entenda?

Nem tipo assim: de
funcionar por funcionar,
proficiência?

Não hei funções: o
funcionar por funcionar,
clique ou
claquete.

sexta-feira, 2 de julho de 2010


CESARIANAS


Mestres parturientes
(professores doidivanas)
sonham cesarianas,

lição de imagens, gaio
o elo que em si

penetram (sentem-se
penetrados). Quando de
suas eras

surgem compenetrados
sinto o conluio, láureas
como se linhas mestras:

inacessíveis faíscas,
símbolo atrofiado quando
de seus tesouros: sóbrios
e ameaçados.


segunda-feira, 21 de junho de 2010


CAMINHO DA ROÇA


Roupas para remendos,
estoque diazepínico,
Deus proverá penicos
ao
interior pau de arara


(sentido irarás e auroras).
Capina que crie enxadas,
silêncio e vergões nas costas,
Deus proverá intestinos

à fome de haver
respostas.

domingo, 20 de junho de 2010


TRANSVALOR
E AÇÃO

Por mais
abstrusas, parcas,
as dívidas querem-se honradas,
indivíduos
plume-implumes:
galináceos, avestruzes.

Por mais musas,
narcisistas,
as dívidas querem-se cinzas,
veredictos
indomáveis:
magistrados adiposos

e em cismar finais, finar-se,
fazem juros, multiplicam as janelas
do suicida inadimplente. As
dívidas: cruz corrente? Atadura

redentora? Antes
crias cujas cifras

transvaloram-se:
valores.

sexta-feira, 18 de junho de 2010


SONETO DAS NECESSIDADES TANTAS

 

Eu preciso encilhar os motoristas,
eu preciso cuspir nos cobradores,
eu preciso mijar nos professores,
de inglês, de francês entre outras 
línguas

mas a vida não é um mictório
e com pedras nos rins ninguém irriga
e é preciso enfezar-se como um signo
que dá à luz seus clarões: polissemia.
 

Eu preciso esventrar filosofias
e calar neste hálito de pinga
desabafos que o bafo não 
esconde.

Eu preciso entornar Hegel and Kant,
de lambujem gestar as utopias
dos que cospem na cara e ainda 
mijam.